quarta-feira, 24 de abril de 2013

REVOLUÇÃO: Essa velha toupeira!


Fundador e líder histórico do PCTP/MRPP, Arnaldo Matos deu uma entrevista à jornalista Lília Bernardes, do jornal Diário de Notícias, a propósito do 25 de Abril.

Contrariando a estafada crise existencial da pequena burguesia e de alguns partidos e organizações que se reclamam da esquerda, que passam a vida a lamentar a morte de uma revolução que não ocorreu e de uma revolução que nunca virá a acontecer, Arnaldo Matos avança uma perspectiva marxista-leninista, revolucionária e progressista, assente na certeza de que a revolução, tal como as velhas toupeiras, vai ressurgir, mais cedo ou mais tarde, na luta contra a globalização.

É por isso que não resisto a reproduzir, no meu blogue, a supracitada entrevista.

Lília Bernardes - Como primeiro líder do PCTP/MRPP, que viveu o 25 de Abril por dentro, que leitura faz da Revolução, 30 anos depois?

Arnaldo Matos - O balanço da Revolução de Abril é globalmente positivo. A Revolução liquidou o colonialismo português, conquistou os direitos, liberdades e garantias fundamentais de um regime democrático e permitiu um certo grau de desenvolvimento económico, social e cultural.
Claro está que a Revolução não logrou alcançar aquilo que, em determinada altura, passou a ser seu objectivo principal: a liquidação do capitalismo e da exploração do homem pelo homem e a instauração do socialismo. Estas continuam a ser as tarefas centrais e cada vez mais actuantes da Revolução em Portugal e no Mundo.

L B - Sente-se hoje um um ídolo de Abril?

A M - Já me têm chamado muita coisa, mas essa ainda não. É evidente que não sou nem nunca fui nada disso.

Qual foi o papel do PCTP/MRPP em todo o processo de mudança em Portugal?
Foi o papel de um pequeno partido marxista-leninista: denunciar o revisionismo e o oportunismo, organizar a classe operária e mobilizar o povo para as tarefas da Revolução. Por isso, foi sempre visto como o figadal inimigo do MFA, do PCP, do PS, do PPD, do CDS e da UDP e de todos quantos apareceram para se instalar no poder e ainda lá estão instalados.

L B - A verdadeira história sobre o golpe de Estado e a participação de Spínola e Otelo, o papel do PCP, ainda está por contar? Considera que, ainda hoje, a elite militar tem demasiado peso nas relações entre poderes?

A M - Sim. A história do golpe de Estado da madrugada de 25 de Abril, bem como das figuras e elites que nele participaram ainda está por fazer. Quando for feita, ver-se-á que não passava de uma autêntica quartelada reaccionária, que visava unicamente resolver problemas corporativos da tropa e substituir a camarilha marcelista por uns quantos tecnocratas, mas deixando tudo o mais na mesmo, incluindo colónias, censura, PIDE, prisões políticas. Quem ouve hoje os militares de Abril a falar ficará a pensar que esses indivíduos desde o ventre das respectivas mães que se propunham salvar a Pátria, quando, na verdade, só se propunham salvar o pêlo. O levantamento popular nas primeiras horas do golpe militar é que fez a Revolução contra as intenções dos próprios militares.

L B - Este é o País com que sempre sonhou? A tal justiça social que tanto se falava perdeu-se na memória?

A M - Este é o meu País. Não quero outro. Não é o País com que sempre sonhei, mas há-de sê-lo um dia. Quanto à ânsia de justiça social, permanece viva nos corações das mulheres e homens do Povo. Nunca morrerá.

L B - Na sua opinião, o que é que falhou na Revolução?

A M - Não falhou nada. Não estavam reunidas na altura, e não o estão hoje, as condições objectivas e subjectivas para ir mais além.

Mas a Revolução, como uma velha toupeira, continua a socavar o seu caminho, e haverá de ressurgir, mais cedo ou mais tarde, precisamente na luta contra a globalização.

L B - Está preocupado com o futuro de Portugal?

A M - Não. Nunca.

L B - Como encara a participação da actual juventude nos destinos do País?

A M - É uma participação decisiva. A verdade é que os jovens são, no momento, o sector mais consciente e combativo de Portugal.

L B - E a esquerda?

A M - A esquerda deste país é uma merda.

L B - Que análise faz à participação e actuação dos sindicatos e partidos, quer em termos de parlamento, quer no discurso dirigido à sociedade civil?

A M - Os sindicatos ainda não perceberam qual é o papel que lhes cabe hoje. Não compreenderam as modificações profundas que se operaram nas suas bases de apoio, não alcançaram o significado das alterações nas relações de produção da mais-valia e não entenderam, designadamente, o sentido e o alcance das novas tarefas políticas internacionalistas que a globalização lhes impõem. Quanto aos partidos, estamos conversados: os da direita estão satisfeitos, porque estão no poder, e os outros estão satisfeitos, porque lambem as migalhas do poder. É fartar, vilanagem!

2 comentários:

  1. Lilia Bernardes é jornalista do Diário de Notícias e não do jornal Público.

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  2. As minhas mais sinceras desculpas à Lília Bernardes pela informação incorrecta relativamente ao órgão de comunicação social que representava aquando da entrevista que fez ao meu camarada Arnaldo Matos. Já procedi à respectiva rectificação no texto do meu blogue.

    Obrigado e uma vez mais as minhas desculpas

    Luis Júdice

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